quarta-feira, 21 de março de 2012

O Senhor Outono chegou


O outono semelha aquele senhor um tanto sisudo, que se anima lá pelo meio da manhã, esboçando um sorriso tímido, dando ideia de que uma gargalhada franca irá irromper. Mas não. Lá pelo meio da tarde o sorriso de canto de boca feneceu, e a temperatura que era amena esfriou um pouco mais.

Ele mergulha na noite, deixando atrás de si um farfalhar de folhas que se desprendem das árvores, em encantadoras piruetas. A cada dia que passa ele vai trocando de roupas, optando pelas mais grossas à medida que o inverno, ainda distante, afia as garras na linha do horizonte.

Da noite de segunda (19) para terça-feira (20), este cavalheiro circunspecto perambulou pelas ruas de Pelotas. Andou fechando a cara pelo meio da tarde, brincando de verão. Só brincadeira, pois seu ofício, mesmo, é atrair o frio, que a cada giro do relógio vai se intensificando.

Os dias quentes vão se despedindo, atraídos pelo mistério do outono. Atraídos por esse sortilégio, deixamo-nos ficar mais introspectivos, por vezes filosóficos, como que retornando à casa que o calor nos forçou a abandonar. É o ir e vir das estações, carregando-nos em seus braços invisíveis.

É o lufa-lufa da transmutação. Um convite a que pensemos, igualmente, na fragilidade de tudo o quanto existe, inclusive a nossa própria fragilidade, cujo bajulador ego insiste em salientar que não é tão frágil assim.

A queda das folhas, por outro lado, aconselha-nos a não levar o ego tão a sério. As trapezistas que se soltam dos galhos para enfeitar o chão são grandes conselheiras e, também, insubstituíveis filósofas. É nessa filosofia que precisamos acreditar. Pelo fato de estarem ao rés do chão não significa que tenhamos de subestimar a filosofia que as envolve.

E tudo isso acontece diante do olhar complacente do senhor outono, acomodado a um banco de praça, pernas cruzadas, olhando a tudo e a todos com seu olhar virado para dentro. Aliás, o olhar da sabedoria.

Através da janela, agora, vejo a tarde fazer-se noite. No céu cor de chumbo alguns grafites dourados diluindo-se rapidamente. Na calçada, andar firme e decidido, o senhor outono vai em demanda de seu destino.
Manoel Soares Magalhães

Este ano o outono chegou às 2h do dia 20 de março. O cronista descreveu poeticamente sua vinda meio de lado, quase em silêncio. Veja o post original, com música incluída, no blogue Cultive Ler.
Fotos: Cristina Carriconde (1) e Jô Folha (2)

3 comentários:

Anônimo disse...

Pleno domínio de um gênero literário muito difícil. O cronista continua poético, conforme o conheci no Amigos. Já visitei seu blog e deixei comentário. Como faço aqui igualmente. Lucas

Anônimo disse...

Ah, Manoel Soares Magalhães, só te chamando pelo nome todo!Excelente tua crônica que faz com que agente sinta a chegada do outono de forma virtual mas íntima. Teu trabalho é a prova da qualidade do escritor que temos em noso meio. Pelo dedo se conhece o gigante! Bastou tua pequena crônica para mostrar o tamanho do teu talento. Parabéns.Um abraço, Rubens Amador.

Cultive Ler disse...

Muito grato, caríssimo Rubens. Tal elogio vindo de um cronista de tua estirpe me lança às nuvens. Porém, como escrevi na crônica, prefiro o rés do chão, junto às filosóficas folhas. Grande abraço. Agradecimento, também, ao ilustre Lucas por sua colaboração. Abraço a ambos.