quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulheres inferiorizadas (crônica)

O seguinte artigo, de autoria da escritora Isabel Silva Vargas, obteve o 1º lugar na categoria Crônicas, em novembro de 2011, no XVI Concurso Literário Internacional de Poesias, Contos e Crônicas (veja lista dos premiados).
Desde os primórdios da humanidade, a mulher já tem o estigma da inferioridade. Sem voz e vontade própria, serva submissa, mero instrumento de satisfação, descartável, bem fungível, material e líquido, na medida em que os homens podiam ter tantas mulheres quanto desejassem ou fossem capazes de manter.

Agressões históricas

Constata-se que, desde as épocas bíblicas, nos casamentos, aquilo que concerne ao célebre “para sempre” é condição preponderantemente vinculada à vontade masculina. Isto advém do início da civilização, passando pelas sociedades tribais e pelos impérios orientais e ocidentais. Recordemos o caso de Henrique VIII, que legislou em causa própria e, não resolvendo seus problemas, mandou a mulher para a masmorra e, não satisfeito, que lhe cortassem a cabeça.

Pés de lótus
Crueldades contra a mulher foram sofisticando-se, aprimorando-se em várias culturas, como na China (dir.), onde as mulheres tinham os pés enfaixados e deformados pela deturpada estética da flor de lótus, o que lhes impedia de fugir por ocasião das invasões, facilitando a sua captura e consequente violação.

Na África, por questões culturais e religiosas mutilam a genitália feminina por garantia de virgindade e por não lhe permitirem o prazer. Mais uma vez, mulher-instrumento, a serviço de seu amo e senhor ou para perpetuidade de dogmas. Ainda hoje cerca de 100 milhões de mulheres passam por esta prática, em cerca de mais de 26 países da África e da Arábia. E não esqueçamos aquelas que hoje devem se manter cobertas, invisíveis, à mercê de quem oferece mais nos contratos matrimoniais que são realizados quando meninas.

Apesar de 2000 anos passados desta Era denominada de Cristã e dos avanços sobre os quais poderemos discorrer [v. adiante], as mulheres correm o risco de serem trocadas por menos de meia dúzia de camelos, no norte da África, em países divulgados pela grande mídia por sua cultura e beleza, mas no qual os mais zelosos não se arriscam em largar sozinhas suas mulheres.

Exagero? Isto pode ser o que de mais agradável pode lhe acontecer, se compararmos àquelas que desaparecem, aqui em terra tupiniquim, vítimas da “paixão” – cujo nome correto é barbárie – de seus companheiros, e seus ossos jogados aos cães, eliminando provas, gastos com funerais, lápide e flores. Loucura? Sim, ainda mais se considerarmos que os homens começaram a ser civilizados, ao enterrarem seus mortos. Triste ironia.

Nesta trajetória de tempo e espaço não podemos esquecer aquelas tantas queimadas vivas, torturadas na época da Inquisição – afinal, quem sangra todo mês e não morre só pode ser mesmo uma bruxa –, e aquelas que, mais recentemente, foram queimadas por reivindicarem direitos trabalhistas.

Modernidade

Foi neste século 20 que começaram os tão afamados avanços: direito de voto-exercício de cidadania, desde que os pais ou maridos não determinassem imperiosamente em quem deveriam votar. Democratização da escola pública visando garantir o acesso à educação, embora isso seja um direito fundamental universal e, por conseguinte, não só para o gênero feminino.

Assim mesmo, ainda havia famílias que julgavam que as mulheres deveriam aprender as famosas prendas domésticas (lavar, passar, cozinhar, costurar, bordar) ao invés de aprenderem a ler e escrever.

Foi a partir deste evento, acesso à educação, que as mulheres passaram a ter condições efetivas de ingresso no mercado de trabalho. Maravilha! Graças a isso temos, além das domésticas, babás – consideradas as primeiras profissões junto com as lavadeiras, pois não pressupunham escolaridade.

Puderam as mulheres ascender às carreiras bem mais reconhecidas, aplaudidas e às quais a sociedade confere mais status: médicas, advogadas, dentistas, juízas, promotoras, desembargadoras, por antiguidade e merecimento.

"As Sete Idades da Mulher", de H. Baldung
(v. Wikipédia)
A estas se somam, na atualidade, mulheres pesquisadoras, na política, carreira militar, aviação comercial e outras profissões, outrora inconcebíveis ou inexistentes para o sexo feminino.

Muito bem, as mulheres conquistaram com denodo e competência a possibilidade de disputar com os homens o acesso ao mercado de trabalho, mas em compensação conquistaram a dupla jornada e a culpa de deixarem seus filhos aos cuidados de outras pessoas.

Os salários, em geral, são menores, sofrem constrangimentos ainda hoje, pois apesar do amparo legal, têm que provar que não estão grávidas para serem admitidas no emprego, sofrem assédio psicológico, sexual e moral. Em alguns segmentos, são obrigadas a submeter-se à revista antes de deixarem o local de trabalho, para provar que não estão levando nada do patrão.

Como se toda a responsabilidade que carrega, com o peso histórico de ser a sofredora mártir mãe de Jesus, ou a discriminada Maria Madalena não bastassem, ainda tem de ser como Amélia – que é por quase unanimidade a "mulher de verdade" – e por exigência de mercado tem de ser bela, perfumada e gostosa, pois, como diz o poeta, “beleza é fundamental” [ouça a Receita de Mulher, de Vinícius].

Isabel Cristina Silva Vargas
Imagens da web

Um comentário:

Lynn Klarckson disse...

Incrível!
Extamente de acordo ao meu campo de visão,finalmente encontrei algo que pudesse iluminar meu receio do que é "ser mulher" na sociedade.
Parabéns!